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Poucas palavras exercem tanto fascínio quanto a palavra “progresso”. O termo nos remete imediatamente à ideia de avanço, desenvolvimento, liberdade, conhecimento e melhoria das condições de vida. Por essa razão, opor-se a ele pareceria, por definição, um desejo deliberado pelo atraso, pela ignorância ou pela pobreza.

Talvez por isso uma parcela da esquerda tenha conseguido apropriar-se, com extraordinária eficiência, do rótulo de “progressista”. A escolha passa longe de ser inocente: trata-se de uma estratégia deliberada, desenhada nos âmbitos psicológico e político.

Ao se apresentar como progressista, um indivíduo busca ocupar antecipadamente o lado moralmente superior do debate. Seus adversários passam a ser vistos, ainda que implicitamente, como conservadores no sentido mais pejorativo da palavra: pessoas resistentes a mudanças, insensíveis às desigualdades e apegadas a privilégios conquistados com o tempo. Mas será que basta se declarar progressista para efetivamente representar o progresso?

A história, no entanto, recomenda cautela. Não pretendo transformar esta reflexão em um compêndio de indicadores econômicos, taxas de inflação, níveis de pobreza ou comparações entre países; os exemplos são amplamente conhecidos e cabe a cada leitor avaliá-los sob a luz de suas próprias convicções.

Minha inquietação, portanto, é anterior aos números: ela é conceitual. Afinal, o progresso não pode ser medido apenas pelas intenções anunciadas, mas pelas consequências efetivamente produzidas.

Prometer igualdade é relativamente fácil; construir uma sociedade que ofereça oportunidades, preserve a liberdade e permita a prosperidade individual é imensamente mais complexo, pois exige trabalho, determinação e segurança institucional — tanto jurídica quanto econômica.

Defender os mais vulneráveis é uma intenção nobre. No entanto, mantê-los reféns da dependência estatal, da inflação, da baixa produtividade, do ensino sucateado e da incapacidade de poupar é condená-los a um cenário de absoluta falta de perspectivas — o que dificilmente poderia ser chamado de progresso.

Falar em democracia também é simples. Respeitar as instituições, a Constituição, os limites de poder, a liberdade de expressão e a alternância política diante de críticas e derrotas exige muito mais do que retórica: exige convicção democrática genuína.

É exatamente nesse ponto que o romantismo, tão sedutor aos jovens, começa a se desfazer. Afinal, há ideias que chegam envoltas em termos generosos — justiça social, igualdade, inclusão, solidariedade e defesa dos oprimidos. Trata-se de expressões poderosas, justamente porque apelam aos sentimentos mais elevados do ser humano. O problema não está nesses valores, que são legítimos e deveriam fundamentar qualquer sociedade civilizada, mas no momento em que são instrumentalizados para blindar a ideologia contra perguntas incômodas.

Quem pagará pela promessa?

Como e por quem a riqueza necessária será produzida?

Quedarão salvaguardadas as liberdades individuais e os limites do próprio Estado?

E, por fim, quem fiscalizará aqueles que afirmam agir em nome do povo — ou que se autorrotulam os únicos defensores da democracia e da Constituição?

Quando tais perguntas passam a ser desqualificadas como demonstrações de egoísmo ou insensibilidade social, abandona-se o terreno do debate. Entra-se, então, no campo da catequese política — e toda catequese dispensa dúvida, pois parte do pressuposto de que já é detentora da verdade.

Ao longo de minha trajetória profissional, testemunhei inúmeras decisões corporativas tomadas com as melhores das intenções. Algumas produziram bons resultados; outras fracassaram por ignorar a realidade, subestimar os riscos ou confundir desejo com capacidade de execução. Na vida pública, a lógica não deveria ser diferente: boas intenções merecem consideração, mas não podem servir como salvo-conduto para maus resultados.

Talvez o verdadeiro progressista não seja aquele que promete construir a sociedade ideal, mas sim aquele que se dedica a aperfeiçoar, de forma concreta, a sociedade possível.

É ser progressista ampliar oportunidades destruindo os reais incentivos à produção?

É ser progressista proteger os vulneráveis sem transformá-los em dependentes permanentes?

É ser progressista desrespeitar as diferenças, sobretudo quando elas se manifestam como divergência política?

É ser progressista preservar a democracia não apenas quando ela ratifica nossas preferências, mas principalmente quando o resultado das urnas nos é desfavorável?

É preciso reconhecer, com a mesma honestidade intelectual, que nem toda proposta identificada com a esquerda conduz ao autoritarismo — assim como nem toda bandeira da direita é garantia de liberdade, competência ou responsabilidade. A história oferece advertências severas para ambos os lados. O erro, afinal, está em conceder a qualquer grupo o monopólio da virtude.

Nenhuma corrente política deveria ser julgada pelo rótulo que atribui a si mesma. Seu verdadeiro valor reside na sociedade que ajuda a construir, nas liberdades que preserva, nas oportunidades que cria e na responsabilidade com que conduz o futuro.

Às vésperas de um processo eleitoral, os slogans tornam-se particularmente sedutores: eles simplificam o mundo, dividem as pessoas entre boas e más e tentam nos poupar do trabalho essencial de examinar ideias, trajetórias e consequências. É justamente por isso que precisamos desconfiar das fórmulas fáceis — e daqueles que as produzem.Progressista não é um adjetivo que alguém possa simplesmente incorporar à própria legenda; é uma qualidade que precisa ser demonstrada objetivamente. E talvez as perguntas fundamentais que devamos fazer a quem se proclama progressista sejam muito mais simples: progresso para quem? Construído de que maneira e a qual custo?

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Osvaldo Schirmer

Osvaldo B. Schirmer é graduado em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com Master’s Degree pela Southern Illinois University e formação executiva complementar na Harvard Business School. Desenvolveu grande parte de sua carreira executiva no Grupo Gerdau, onde atuou por 27 anos, tendo exercido, entre outras, as funções de Diretor Financeiro, CFO Global, Vice-Presidente e membro do Comitê Executivo. Desde 2013 dedica-se principalmente à atuação em Conselhos de Administração, tendo participado de empresas de capital aberto e fechado, nacionais e internacionais, em diferentes setores da economia. Em Lojas Renner, onde esteve por 14 anos, foi membro, Presidente e Vice-Presidente do Conselho. Atualmente integra os Conselhos da SLC Agrícola, Oleoplan e Vibra Foods, além de atuar em comitês de Auditoria e Finanças. Foi professor da UFRGS e atualmente participa como professor convidado da Fundação Dom Cabral em programas de formação de conselheiros. Atua também como mentor de executivos C-Level. Escreve regularmente sobre governança, liderança e comportamento humano, temas que progressivamente ampliou para reflexões sobre escolhas, relações e experiências da vida.