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Tenho pensado em uma coisa que parece simples, mas talvez não seja tanto assim: quando foi que “isso me incomoda” começou a significar “isso deveria incomodar você também”?

Porque uma coisa é eu dizer que determinada situação me deixou desconfortável. Outra, bem diferente, é esperar que você olhe para a mesma situação, sinta algo parecido e chegue à mesma conclusão que eu. E tenho a impressão de que, sem perceber, estamos misturando cada vez mais essas duas coisas.

Se eu achei uma fala inadequada, espero que você também ache. Se me senti desrespeitado, parece óbvio que você deveria enxergar o desrespeito. Se uma decisão me incomodou, fica difícil entender como você pode estar tão tranquilo diante dela. E, quando o outro não reage como esperamos, não é raro aparecer uma interpretação a mais: ele não entendeu, não percebeu, não se importa, não tem sensibilidade.

Mas e se ele entendeu e, ainda assim, não se incomodou?

Talvez seja justamente essa possibilidade que esteja ficando difícil de sustentar.

É curioso porque vivemos falando sobre diversidade, sobre respeitar diferenças, sobre aceitar que as pessoas têm histórias, repertórios e maneiras distintas de estar no mundo. Só que isso também deveria valer para a forma como percebemos as situações. Pessoas diferentes não apenas pensam diferente. Elas sentem diferente, atribuem pesos diferentes às coisas e têm limites diferentes.

Nas empresas, isso aparece o tempo inteiro. Uma pessoa recebe uma cobrança e considera que houve apenas objetividade; outra recebe a mesma cobrança e a percebe como agressiva. Um sócio entende determinada decisão como pragmática e necessária para o negócio, enquanto o outro vive aquilo como uma quebra de confiança. Para alguém, o silêncio depois de uma reunião não significa absolutamente nada; para outro, aquele silêncio diz tudo.

E aí começa a parte complicada, porque geralmente queremos descobrir quem está certo. Só que talvez nem sempre exista alguém certo nessa equação.

Há uma diferença importante entre respeitar o desconforto do outro e concordar que aquela situação deveria ser desconfortável. Eu posso reconhecer que alguma coisa afetou você, posso querer entender, escutar, rever minha atitude e até fazer diferente numa próxima vez sem, necessariamente, ter vivido aquilo da mesma maneira.

E você também pode aceitar que eu não senti o que você sentiu sem concluir imediatamente que isso revela falta de empatia da minha parte.

Empatia não é sentir igual. É conseguir reconhecer como legítimo um sentimento que talvez eu não tenha.

Parece simples quando escrevemos. Na vida real, nem tanto.

Porque existe algo bastante confortável em encontrar pessoas que confirmam nossa leitura das coisas. “Você também achou estranho, né?” “Você viu o que ele fez?” “Não fui só eu que percebi.” Quando o outro confirma, de alguma maneira ele também confirma a nossa própria percepção. Talvez por isso seja tão difícil quando alguém responde: “Não, eu não vi dessa forma”.

Não necessariamente porque essa pessoa esteja certa. Mas porque ela nos devolve para uma pergunta bem mais incômoda: será que a minha maneira de perceber essa situação é uma possibilidade ou é a única possível?

E acho que aqui existe uma contradição interessante do nosso tempo. Nunca falamos tanto sobre o direito de sermos diferentes e, ao mesmo tempo, às vezes parecemos pouco disponíveis para conviver com alguém que interpreta uma mesma situação de um jeito diferente do nosso.

Claro que isso não significa relativizar tudo. Existem comportamentos inadequados, limites éticos, acordos que precisam ser cumpridos e relações em que efetivamente há abuso, desrespeito ou violência. Nem tudo pode ser colocado na conta de “cada um percebe de um jeito”.

Mas também não podemos ir para o outro extremo e concluir que todo desconforto comprova que alguém fez alguma coisa errada.

Às vezes, o desconforto também fala de mim. Da minha história, das minhas expectativas, dos meus limites, do significado que atribuí àquela situação. E isso não torna o que eu senti menos verdadeiro. Apenas significa que o que eu senti não se transforma automaticamente em uma verdade sobre o outro.

Talvez seja aí que a conversa fique mais interessante.

Em vez de “como você pode não perceber isso?”, experimentar perguntar “o que você percebeu nessa situação?”. Em vez de tentar convencer o outro de que ele também deveria estar incomodado, tentar entender por que aquilo produziu experiências tão diferentes em duas pessoas.

Não sei se precisamos sentir mais as mesmas coisas. Talvez precisemos aprender a conversar melhor sobre aquilo que sentimos diferente.

Porque eu não preciso me desconfortar para levar a sério o seu desconforto. E você não precisa que eu sinta exatamente o mesmo para que aquilo que sentiu seja legítimo.

Em uma época que fala tanto sobre diversidade, talvez esteja faltando espaço justamente para uma das diferenças mais difíceis de aceitar: a diferença entre a minha experiência e a sua.

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Bibiana Zereu

Empresária, Psicóloga, Consultora e Advisor em temas de Desenvolvimento Humano e Organizacional. Mestre pela FGV em Gestão Estratégica. Especialização em Empresas Familiares - Barcelona. Conselheira para Startups pela Board Academy. Experiência de 30 anos em desenvolvimento Humano.