O primeiro livro infantil de José Saramago chama-se “A maior flor do mundo”, publicado em 2001 e, como um legítimo e incomparável Saramago, nos remete a questões profundas e inquietantes sentimentos até mesmo para os adultos. Na obra, o autor se coloca como personagem e narra a sua própria dificuldade em escrever para crianças. A história, contada como se fosse apenas um esboço, gira em torno da ideia de escrever sobre um menino que faz nascer a maior flor do mundo e que, se lograsse êxito em escrevê-la, seria a melhor e mais extraordinária já contada. O menino, ao superar os desafios para conseguir água, faz uma simples flor murcha sobreviver e dar sombra como se fosse um carvalho. Depois, quando ele “passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos”.
Quando nos remetemos à nossa infância, normalmente somos invadidos por uma sensação de nostalgia e de lembranças que talvez sejam potencializadas pela saudade que sentimos daqueles tempos. Talvez o nosso quintal não seja hoje tão mágico como lembramos, talvez a nossa comida preferida naquela época não seja tão especial assim para outras pessoas e nossas histórias sejam de fato somente especiais para nós mesmos. E é isso exatamente o que importa: o valor que as situações têm para nós, nos deixando saudosos dessas boas lembranças. Muitas vezes não era a comida, a brincadeira, o pátio ou a flor que eram especiais. Muitas vezes, o que nos dá saudades é da nossa própria inocência e pureza em acreditar que tudo é possível. Muitas vezes, o que realmente era especial era a nossa capacidade infantil de acreditar, de enfrentar e de sentir. Quando nos sentimos muito desacreditados e sem ânimo, sufocados por rotinas sem graça e sem sentido, precisamos voltar a dialogar com a criança que já fomos um dia e que ainda está em algum lugar dentro de nós. Provavelmente, ela não tenha respostas para nos dar, mas certamente nos ajudará a melhorar as perguntas e afinar o nosso foco.
Saramago, na obra mencionada, aponta justamente o paradoxo entre o potencial das crianças frente ao ceticismo dos adultos. De fato, amadurecer é justamente encontrar o equilíbrio neste paradoxo, encarando as responsabilidades sem perder o encantamento; é entender que sempre deverá haver espaço para a imaginação e o altruísmo da infância. Quando lembramos das histórias que nos eram contadas e que nós mesmos líamos na nossa infância, nos damos conta de que sempre ficava clara a moral da história. Mesmo que não conhecêssemos o termo ética, sabíamos claramente como o personagem deveria agir, quem deveria ser perdoado, quem nos fazia sentir empatia, quem queríamos ser dentre os personagens. Entendíamos inclusive histórias como “O cão e a raposa”, em que não havia necessariamente mocinho e bandido, mas naturezas diferentes e que, acima de tudo, amizades verdadeiras fazem a diferença.
Enfim, e voltando à obra citada no título, me reservo o direito de reproduzir aqui uma parte do final do livro que pode nos ajudar a voltar à nossa essência sempre que entendermos que estamos precisando:
“E se as histórias para as crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?”
E essa é a moral da história!



