fbpx Skip to main content

A democracia, em sua vertente civilizatória, firma pacto político intergeracional: aos mais velhos cumpre o trabalho diário pelo aprimoramento qualitativo das instituições de forma a viabilizar um futuro melhor aos mais jovens. Tal ciclo virtuoso – selado entre vínculos de consciência e responsabilidade cívica – eleva a democracia como instrumento de realização do bem comum, do crescimento econômico, do desenvolvimento humano, da evolução social e cultural do povo. Em sua dinâmica estrutural, o sucesso de uma geração política é medido por sua herança institucional ao país. 

Nossos pais cumpriram com seu dever, entregando um Brasil melhor. A imagem de Ulysses Guimarães empunhando a Constituição é o símbolo de uma geração que acreditou na retomada institucional e no restabelecimento do regime das liberdades constitucionais como vias de construção de um país mais justo, próspero e com oportunidades a todos os brasileiros. Apesar dos trancos e solavancos naturais de processos políticos complexos, os artífices da redemocratização conseguiram colocar o país em nível institucional mais alto, especialmente após debelarem a inflação galopante com o sucesso do Plano Real. Em homenagem às conquistas do passado, a estabilidade econômica deveria ser marco inegociável frente ao populismo demagógico da irresponsabilidade fiscal.          

Infelizmente, entre sinuosidades da vida política, divergimos do caminho da prosperidade. A governança pequena e mesquinha retomou as rédeas de condução da República, vilipendiando-a. Em vez da riqueza coletiva, elegemos a pobreza individual. Ao invés da razão de pensar o país, optamos pelo erro e estupidez. Em vez da decência, ganhou a corrupção. Ao invés do império da lei, erigiu a injustiça ostensiva. Em vez do ensino, entregamos a ignorância. Ao invés da segurança pública, decaímos na violência urbana. Os fatos estão aí; basta olhos de ver. 

É triste admitir, mas a geração atual (da qual faço parte) não está assumindo sua responsabilidade política com país. A tacanha dualidade eleitoral entre Lula e Bolsonaro é sintoma do brete que nos metemos. Iremos às urnas com a certeza de que o voto não resolverá nossos problemas. Tal situação é absolutamente frustrante, fragilizando o ideal democrático e sua força transformadora no imaginário popular.  

A retomada do crescimento e da prosperidade não acontecerá por milagres. Política séria é trabalho diário, é capacidade de decisão, é habilidade de construção de consensos, é autoridade, sem rabo preso, para agir com independência e espírito público. Portanto, o país precisa urgentemente de uma nova força política a vir do âmago da sociedade civil inconformada, pressionando a política de fora para dentro. Não tem outra solução possível. O dever é nosso. Chega de fazer de conta que não é conosco. Chega de querer o bônus da democracia sem o ônus da responsabilidade. 

Objetivamente, o Brasil é frágil e vulnerável porque não temos projeto de inserção geopolítica nem agenda de desenvolvimento nacional. O país é uma bagunça. O improviso nos governa. O povo sofre. Assim o é porque temos um poder econômico pacato e subalterno. Não exerce sua liderança. Aceita o desmando. Cala quando deveria falar. Elege a inércia e, não, a ousadia transformadora.  

Por tudo, a tendência é de que nossos filhos recebam um país institucionalmente mais baixo, com a democracia em descrédito e a economia gravemente avariada. Tal cenário desolador não é uma condenação perpétua. Democracia é possibilidade de mudanças. Para tanto, o caminho é um só: a elite econômica assumir sua responsabilidade com o país, vindo a ocupar o vácuo de poder atual e, ato contínuo, substituir o insustentável modelo socialista estatizante por um vigoroso capitalismo de oportunidades a todos brasileiros.   

Texto publicado originalmente no jornal O Globo

Deixar um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Sebastião Ventura

Advogado, especialista em Direito do Estado pela Universidade Federal do Rio Grande Sul. Ver perfil completo >>