Antes de qualquer consideração, preciso deixar claro que sou daquelas pessoas que somente assistem a partidas de futebol em competições importantes, que não conhece muito bem os atletas e tampouco as regras do jogo. Entretanto, mesmo assim, quando a gente se propõe a assistir aos jogos da Copa do Mundo, por exemplo, impossível não torcer, não vibrar, não xingar, não se empolgar. Competições que envolvem nações, que representam um povo são assim.
O Prêmio Nobel de Literatura, Albert Camus, que atuou como goleiro do Racing Universitaire Algérois, chegou a dizer: “Tudo o que sei com mais certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo ao futebol”. Inclusive interessante mencionar que a posição de goleiro foi definida por sua parca condição financeira. Como goleiro não desgastaria tão rapidamente as chuteiras. Em resumo um tanto simplista, o autor absurdista/existencialista coloca que jogando futebol entendeu que nunca se está totalmente preparado para a vida, pois o imprevisível, o absurdo, pode acontecer a qualquer momento. Camus enxergava o campo de futebol como um “laboratório” para entender o ser humano e lidar com o “absurdo” da vida. A posição de goleiro lhe ensinou a enfrentar a solidão diante do imprevisível mesmo sendo parte ativa e importante de uma equipe. Ele coloca que longe do idealismo, o esporte ensina de maneira concreta a importância da responsabilidade, da união e do respeito às regras.
Saindo um pouco da filosofia de Camus, mas olhando para a Copa do Mundo com o viés dele, realmente muito temos o que pensar. Não consigo imaginar uma situação que crie verdadeiramente o espírito de irmandade em um povo como torcer pelo seu país no esporte. Um exemplo inacreditável, que beira a um milagre, é pensarmos que lulistas e bolsonaristas por algumas horas deixaram de lado os antolhos e se permitiram visão plena e emoção sincera torcendo pelo mesmo final. Ao analisarmos a composição dos times fica clara a meritocracia, independente do tom da pele e nenhuma política afirmativa foi necessária para garantir a ascensão de qualquer jogador, isso de fato um sonho em termos de sociedade.
Outro ponto que ficou muito claro é a bagagem cultural dos ingleses. Aqui, sou obrigada a admitir que traí por uns instantes minha origem para garantir a honestidade, porque sinceramente gostaria de integrar a torcida inglesa após os jogos. Gostaria de orgulhosamente cantar Wonderwall em coro. Fiquei imaginando qual canção seria a da nossa torcida? A questão realmente não é de ausência de músicas clássicas, temos obras a altura em nosso país. A questão é qual música a torcida teria capacidade de cantar em coro de forma emocionada. Os ingleses deram esta lição para o mundo.
A partida final nos mostrou uma disputa de igual para igual entre colonizador e colonizado. Sem qualquer interferência externa, vimos o que antes era opressor e oprimido, atuarem com respeito mútuo, condições iguais e inclusive unidos em irmandade pelo amor ao esporte. Ouso afirmar que nenhum atleta em campo das duas seleções, sequer por um segundo, pensou em dívidas históricas, em superioridade por raça ou capital ou qualquer outra diferença além do futebol a ser entregue. Se isso é possível, se foi possível em um cenário real, é porque temos condições de fazê-lo. Que um dia o mundo seja o espelho de um campeonato de futebol, que os países se respeitem como as equipes da copa onde ao final vencedor e vencido se cumprimentam e todos voltam para casa íntegros e com a sensação de dever cumprido.



