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A gente entra ingênuo nas empresas, achando que crescer depende principalmente de competência, esforço, resultado e boas ideias. E talvez essa seja uma das primeiras perdas silenciosas da vida profissional: descobrir que, em muitos lugares, entender o jogo pesa tanto quanto trabalhar bem. O problema é que ninguém nos explica isso claramente. A gente aprende na dor.

Aprende percebendo quem cresce rápido. Quem pode confrontar uma liderança sem sofrer consequências. Quem recebe crédito por ideias construídas coletivamente. Quem pode errar sem comprometer a reputação. Quem precisa trabalhar o dobro para ser considerado “pronto”.

E, principalmente, aprende observando aquilo que não pode ser dito. Aquilo que passa despercebido, mesmo não sendo coerente.

Porque toda organização possui regras invisíveis funcionando paralelamente ao discurso oficial. Existe o organograma formal. E existe a estrutura real de poder. Nem sempre elas coincidem ou fazem sentido.

Tem empresas que falam em autonomia enquanto controlam emocionalmente cada decisão relevante. Empresas que defendem inovação, mas punem quem expõe incoerências ou mesmo quem erra na tentativa de acertar. Empresas que dizem valorizar transparência, mas promovem exatamente quem sabe preservar os pactos silenciosos da cultura. As pessoas percebem isso muito antes de as pesquisas de clima perceberem.

E talvez aqui nasça um dos maiores dilemas éticos da vida corporativa.

Porque existe uma diferença entre desenvolver maturidade política e começar a se deformar para continuar pertencendo. Entre inteligência relacional e conveniência silenciosa. Entre aprender a navegar no sistema e aprender a sobreviver se calando perante as incoerências.

Em algum momento, quase todo profissional lúcido se faz uma pergunta difícil: até onde eu jogo esse jogo sem perder partes importantes de mim? O que está indo contra os meus valores?

Porque entender o jogo muda tudo.

Depois que você percebe que nem sempre cresce o mais competente, fica impossível continuar olhando para as organizações com a mesma ingenuidade. Você começa a entender que influência, pertencimento, legitimidade e leitura política também decidem carreiras.

E talvez o mais desconfortável seja admitir que, em muitos contextos, não jogar tem preço. Mas jogar demais também.

Vemos pessoas se tornando cínicas. Observamos pessoas doentes. Tem gente que aprende a operar o sistema de forma brilhante (sabe jogar). E tem gente que vai embora porque o custo emocional da adaptação ficou alto demais.

O curioso é que as organizações raramente falam sobre isso de maneira madura para minimizar o impacto na cultura e nas pessoas. Parece que isso já faz parte. Entram os que sabem as regras. Preferem manter a fantasia da meritocracia pura porque ela organiza a narrativa. Mas quem vive empresas de verdade sabe que estruturas humanas são feitas também de medo, vaidade, território, insegurança, alianças e jogos de preservação.

Talvez por isso tanta gente competente esteja cansada. Não necessariamente do trabalho. Mas da exaustão de precisar interpretar o tempo inteiro quais são as regras não escritas daquele ambiente. Ficar atento para medir palavras cansa, bem como cansa tentar entender até onde a autenticidade é realmente bem-vinda. Perceber que, às vezes, falar a verdade certa no momento errado pode custar espaço, carreira e pertencimento.

E talvez exista uma maturidade nova começando a surgir justamente aqui.

Não na ingenuidade de acreditar que o jogo não existe ou mesmo de tentar mudar algo maior. Mas na coragem de enxergá-lo sem precisar perder completamente a própria integridade para continuar jogando ou mesmo escolher se quer ou não entrar nele.

4 Comentários

  • Marcia Hupfer disse:

    Perfeito Bibiana. E o quanto solitário é esta trajetória. Graças a Deus consegui compreender cedo e poder fazer minhas escolhas sem corromper meus valores e auxiliar meus liderados. Obrigada

  • Ana Abreu disse:

    Excelente, Bibiana. Entender as regras do jogo e ter maturidade para saber se quer joga-las ou não, e as consequências disso, são importantíssimas.

  • César Leite disse:

    Parabéns Bibiana

  • César Leite disse:

    Parabéns Bibiana, belo artigo

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Bibiana Zereu

Empresária, Psicóloga, Consultora e Advisor em temas de Desenvolvimento Humano e Organizacional. Mestre pela FGV em Gestão Estratégica. Especialização em Empresas Familiares - Barcelona. Conselheira para Startups pela Board Academy. Experiência de 30 anos em desenvolvimento Humano.