fbpx Skip to main content

“Afinal… quem de vocês é o chefe?”

Essa não é uma pergunta organizacional. É uma sondagem de poder.

O irmão mais velho reage: “Eu sou o mais velho.” O gângster ironiza. O irmão menor avança em defesa.

O gângster ataca: “Então está explicado, tu és o bruto.” E foca no Tommy e diz: “E tu, que está me olhando de cima a baixo como se eu fosse uma prostituta?”

Tommy Shelby responde com frieza: “Eu só quero saber o que tu queres.”

Quando o contador do gângster começa a explicar os problemas nos jogos, Tommy devolve, com precisão cirúrgica:

“Afinal… quem de vocês é o chefe?”

O efeito é imediato no gângster: desconcerto, perda de controle, humilhação silenciosa.

Tommy Shelby entende algo que Friedrich Nietzsche escreveu em filosofia e que executivos experientes aprendem na prática: o poder real não se anuncia. Ele é sentido.

Para Friedrich Nietzsche, o ser humano é um campo de forças. Em situações de poder, não vence o argumento; vence a força que se impõe como dominante naquele instante. Você nunca está negociando com uma pessoa. Está negociando com um sistema instável de vontades. “Há muitas almas em meu peito, eu sou muitos.” Tommy não responde como esperado. Ele desconstrói o enquadramento da pergunta.

Em vez de apontar para si ou para outro, ele:

Mantém o controle do silêncio;
Desloca o foco da hierarquia explícita;
Mostra que o poder ali não é óbvio nem acessível.

A inversão de forças é o ponto-chave, profundamente nietzschiano:

Quem pergunta primeiro tenta dominar o campo;
Quem aceita o enquadramento joga no campo do outro;
Quem devolve a pergunta redefine o campo.

Friedrich Nietzsche (1844–1900) foi um filósofo, filólogo e ensaísta alemão que rompeu com a tradição moral e metafísica do Ocidente. Seu pensamento é provocador, aforístico e profundamente crítico, feito para incomodar certezas e estimular a criação de novos valores.

Em sua obra mais famosa, Assim Falou Zaratustra, Friedrich Nietzsche não escreve um tratado, escreve um espelho. “O corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um só sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor.” A metáfora é clara: muitos impulsos, instintos e vozes coexistem dentro do indivíduo.

Na prática, isso significa que, em uma negociação:

Você não negocia com a pessoa;
Você negocia com suas várias almas.

Em uma mesa estratégica, convivem simultaneamente:

A alma racional – números, valuation, risco, EBITDA;
A alma defensiva – medo de errar, preservar reputação;
A alma do ego – legado, poder, reconhecimento;
A alma política – conselho, investidores, acionistas;
A alma histórica – experiências passadas, traumas, sucessos;
A alma instintiva – desejo de controle, dominação ou fuga.

Nietzsche nos ensina: não é possível saber, com certeza, qual delas está falando agora. E, frequentemente, nem o próprio interlocutor sabe.

O erro clássico dos executivos experientes

Executivos brilhantes falham quando:

Assumem coerência total no outro;
Confundem cargo com identidade;
Levam palavras como verdades finais;
Acreditam que decisões são puramente racionais.

Nietzsche já havia alertado: “Um pensamento vem quando ele quer, e não quando eu quero.” A decisão anunciada hoje pode não ser a decisão que prevalecerá amanhã, porque outra alma assumiu o comando.

Inspirados por Nietzsche, a postura correta não é cinismo, é lucidez. Não negocie pessoas. Negocie forças.

Pergunte-se sempre:

Que força está dominante agora?
Medo? Ambição? Pressão externa? Vaidade?

Evite o apego à primeira convergência. A concordância inicial pode ser apenas a alma cordial.

A filosofia de Friedrich Nietzsche torna-se especialmente prática quando saímos dos livros e entramos em salas fechadas, onde decisões de dezenas ou centenas de milhões de reais são tomadas em poucas horas, às vezes em poucos minutos.

Vou relatar alguns casos em que estive na posição, às vezes de Tommy, às vezes do gângster, e com várias almas se modificando.

A startup sendo adquirida: “vocês” não são um, e “eles” tampouco

Você está sentado como C-Level de uma startup em processo de aquisição. Do outro lado, um grande grupo. A armadilha clássica é pensar: “Estou negociando com a empresa.” Nietzsche diria: não existe “a empresa” ali.

Na mesa coexistem:

A alma financeira, focada em valuation e sinergias;
A alma política, preocupada com o conselho e o mercado;
A alma do executivo comprador, que quer a aquisição no currículo;
A alma defensiva, que teme integrar algo que não controla.

Quando a conversa flui, pode ser a alma visionária falando. Quando surgem cláusulas duras, é a alma defensiva que tomou o comando.

Postura nietzschiana

Não se apaixone pelo tom amigável inicial;
Garanta proteções contratuais, earn-outs claros, governança definida;
Lembre-se: a alma que promete não é a mesma que opera.

Quem entende a multiplicidade não negocia carisma, negocia estrutura.

Aquisição de equipamentos acima de R$ 100 milhões: quando o “sim” não é consenso.

Agora você está em uma negociação de equipamentos críticos, com valor acima de R$ 100 milhões. A mesa parece técnica. Mas Nietzsche sorriria.

Ali estão:

A alma técnica, que quer performance e robustez;
A alma financeira, obcecada por CAPEX e TCO;
A alma do fornecedor, tentando proteger margem;
A alma do gestor local, que não quer assumir riscos futuros.

Quando alguém diz “faz sentido”, a pergunta correta é: para qual alma isso faz sentido?

Postura nietzschiana

Nunca confunda aprovação técnica com decisão final;
Mapeie quem carregará o risco depois da assinatura;
Crie cláusulas que sobrevivam à troca de gestores e prioridades.

Nietzsche ensinaria: decisões grandes morrem quando mudam as almas que as sustentam.

A mesa com 20 executivos de altíssimo nível: quando o desastre quase acontece

Imagine agora uma mesa com mais de 20 executivos, de empresas diferentes, todos C-level, discutindo um movimento estratégico conjunto. Tudo indica sofisticação. Tudo indica risco. Nietzsche nos avisaria: quanto maior a mesa, maior a fragmentação invisível.

Ali convivem:

Almas visionárias;
Almas oportunistas;
Almas que só querem evitar prejuízo;
Almas que não querem ser as culpadas.

O movimento quase vira um desastre porque:

Todos concordam em público;
Poucos concordam internamente;
Cada um leva para casa uma interpretação diferente.

Postura nietzschiana

Reduza ambiguidades ao extremo;
Formalize decisões imediatamente;
Não confie na “energia positiva da sala”.

Grandes fracassos começam com frases como: “Estava todo mundo alinhado.” Nietzsche chamaria isso de autoengano coletivo.

O player global que prestou um serviço péssimo: quando a máscara cai

Por fim, a negociação mais delicada: um player global, marca forte, contrato relevante, mas serviço ruim, quase abalando a empresa.

Aqui aparece a multiplicidade em estado bruto:

A alma institucional, que defende a marca;
A alma operacional, que falhou;
A alma jurídica, que quer limitar responsabilidade;
A alma política, que teme precedentes.

O erro comum é atacar a empresa como se fosse uma entidade moral única.

Postura nietzschiana

Não moralize o conflito;
Identifique qual alma está negociando agora;
Separe discurso público de negociação privada;
Reforce SLAs, penalidades e governança.

Nietzsche não falaria em “confiança quebrada”, mas em forças mal organizadas.

O amigo Reges Bronzatti relata, em vários de seus artigos, muitas dessas situações de negociação. Há, sim, técnica para fazer boas negociações e todos deveriam se capacitar, além, é claro, de uma boa dose de intuição e comunicação exemplar.

Portanto, no fim, não vence quem tem a melhor alma, mas quem compreende melhor a multiplicidade humana.

E agora eu te pergunto: qual “alma” estava dominando o outro lado quando você fechou seu último grande acordo?

Deixar um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Cristian Cavalheiro

Profissional com 38 anos de experiência em gestão, negócios e tecnologia, atua como conselheiro, consultor, mentor e investidor anjo. Formado em Análise de Sistemas e com mestrado em Gestão e Negócios, teve uma carreira marcante como Vice-Presidente de Tecnologia na Getnet, contribuindo para a 2ª maior rede de captura da América Latina. É presidente do projeto social +praTi, capacitando novos programadores, e fundador da ONG RecomeçaRS, que apoia pequenas empresas afetadas por desastres. Acredita no poder do planejamento e da transformação através da educação.