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A gestão empresarial entrou em uma fase em que crescer já não basta: é preciso decidir com agilidade, responsabilidade e evidência em um cenário de volatilidade extrema. No horizonte de 2026, o diferencial competitivo migra da posse do dado para a fluidez do acesso a ele, encurtando a distância entre pergunta e decisão. Nesse novo arranjo, Business Intelligence, Analytics e liderança executiva deixam de ser disciplinas separadas e passam a operar como um único sistema de gestão. O ponto central não é substituir painéis visuais por chat, mas consolidar um ecossistema de inteligência em duas velocidades, no qual visualização e conversação cumprem papéis complementares e vitais.

Os dashboards tradicionais evoluíram de ferramentas de exibição para centros de reflexão sistêmica e diagnóstico profundo. No meu entendimento, o BI visual ainda é essencial para análises descritivas e diagnósticas integradas, em tempo real ou quase real, sustentando reuniões de diretoria, conselhos e ciclos de planejamento. Ao organizar padrões históricos, comparações e exceções de forma estável, o painel visual funciona como âncora cognitiva para a liderança. Ele reduz ruído, dá contexto e cria um “ponto comum” para alinhar prioridades e decisões entre diferentes áreas.

Ainda assim, o excesso de dashboards e a complexidade de navegação criaram o que muitos executivos vivenciam como um “cemitério de painéis”: a informação existe, mas fica escondida sob camadas de filtros, abas e curvas de aprendizado. O custo de encontrar uma resposta simples pode ser alto demais para a rotina de decisões sob pressão. Além disso, quando o consumo depende de intermediários técnicos, o ciclo de inteligência se alonga e perde relevância operacional. Nesse cenário, o BI permanece indispensável, mas precisa ser complementado por interfaces que reduzam atrito e acelerem a exploração.

É aqui que a Inteligência Artificial conversacional altera o jogo ao viabilizar “conversar com os dados” em linguagem natural, seja por texto ou voz, com respostas sob demanda. A lógica do que vem sendo chamado de “Zero UI” não é “sumir com a interface”, mas minimizar fricção: menos cliques, menos caça ao relatório certo e mais diálogo orientado à intenção. O executivo deixa de ser espectador de gráficos e passa a ser interlocutor do próprio patrimônio informacional. Ao transformar perguntas em consultas, recortes e sínteses, a organização ganha velocidade sem necessariamente abrir mão de profundidade.

O Processamento de Linguagem Natural (PLN) atua como tradutor entre a complexidade técnica dos dados e a visão pragmática do negócio, permitindo que hipóteses sejam testadas com rapidez. Contudo, para que essa autonomia não vire dependência cega, a confiança precisa ser construída de forma explícita. Pesquisas e discussões acadêmicas reforçam que letramento digital, transparência e pensamento crítico são condições para a liderança confiar e usar corretamente respostas geradas por IA, especialmente no contexto de IA generativa, conforme estudos da Fundação Getulio Vargas. Sem esse alicerce, a “velocidade” pode apenas acelerar decisões mal fundamentadas.

A grande inovação aparece quando a camada conversacional está integrada ao BI, e não operando como um canal paralelo. Nesse desenho, a análise deixa de ser majoritariamente reativa (“o que aconteceu?”) e ganha musculatura para apoiar antecipação e recomendação (“o que tende a acontecer?” e “o que fazer agora?”). Tendências de mercado já descrevem a convergência entre IA e BI como catalisadora do salto para analytics preditivo e prescritivo, com recomendações acionáveis geradas a partir de modelos e regras de negócio. Em termos executivos, isso significa reduzir o tempo entre sinal, interpretação e ação — em outras palavras, exatamente onde o ROI costuma se perder.

Ao mesmo tempo, esse avanço só escala com governança, porque respostas rápidas sem rastreabilidade viram risco corporativo. Em 2026, a liderança tende a exigir que o sistema responda e explique: “de onde veio esse número?”, “qual é a definição oficial desse KPI?”, “qual período e qual versão do dado?”, “quais transformações foram aplicadas?”. É aqui que entram camadas como modelo semântico, catálogo, linhagem ponta a ponta, auditoria e observabilidade do pipeline, fazendo a experiência conversacional herdar o rigor que historicamente ficava “escondido” atrás dos relatórios. Governança, nesse contexto, deixa de ser burocracia e vira pré-requisito para decisão de alto impacto.

A discussão de risco precisa estar no texto com a mesma força da promessa, porque a IA conversacional traz armadilhas conhecidas: alucinações, inferências não verificáveis, vieses e exposição indevida de dados por permissões mal configuradas. O caminho responsável passa por guardrails claros: respostas com evidências e referências, explicitação de limites e incertezas, trilhas de auditoria, controle de acesso por função e validação humana nas decisões críticas. Em organizações maduras, o “assistente” não substitui accountability; ele reduz o esforço de análise e amplia a capacidade de síntese, mantendo o humano como decisor final. A governança, portanto, não deve atrasar o uso, mas sim tornar o uso confiável.

Quando a empresa assume conscientemente um ecossistema de duas velocidades, ela para de competir “dashboard versus chat” e passa a orquestrar ambos. A velocidade estratégica, típica do dashboard, sustenta rituais de gestão, comparações históricas, análise de causa-raiz e alinhamento entre áreas; é a camada de profundidade e consistência. A velocidade tática, típica da conversação, atende dúvidas pontuais, decisões em campo, simulações rápidas e exceções que não podem esperar o próximo comitê. O ganho real está na transição fluida: olhar um indicador, perguntar o porquê, segmentar, simular e agir, sem sair do fluxo de pensamento do líder.

Um exemplo simples materializa a ideia: durante uma negociação, o executivo pergunta por voz qual foi a variação de margem por praça nas últimas oito semanas e qual o efeito do desconto médio no mix de produtos. Em segundos, o assistente retorna uma síntese com o número, a explicação do cálculo, o recorte temporal e um gráfico associado, além de indicar a origem do KPI e a última atualização do dado. Se houver incerteza ou inconsistência, a resposta explicita limites e sugere verificações, evitando “certeza falsa”. O valor não está apenas na resposta, mas no encadeamento imediato entre evidência, contexto e decisão.

Essa hibridização também acelera a democratização do acesso à informação, porque remove a barreira do “clicar e filtrar” e reduz a dependência do departamento de TI para perguntas rotineiras. A área de dados deixa de ser fábrica de relatórios e passa a operar como habilitadora: define métricas, governa a qualidade, garante segurança e oferece produtos de dados consumíveis. Com isso, a cultura organizacional tende a migrar do uso ocasional de indicadores para uma postura contínua de curiosidade orientada a evidências. Em termos de competitividade, isso se traduz em decisões mais rápidas, consistentes e menos baseadas em intuição ou relatórios obsoletos.

No limite, o futuro mais plausível não é o fim dos dashboards, mas a sua transformação em ativos dinâmicos e “conversáveis”, capazes de responder a perguntas e explicar resultados no mesmo ambiente de decisão. A tecnologia, nesse desenho, se adapta ao fluxo cognitivo humano, em vez de obrigar o líder a aprender caminhos complexos para obter respostas. A sofisticação da gestão de dados em 2026 reside no equilíbrio entre profundidade do olhar e velocidade da resposta, sustentadas por governança e transparência. O valor, portanto, não está em escolher entre o gráfico e a palavra, mas em dar voz ao que já era visual, transformando o silêncio dos dados em diálogo estratégico e fazendo a pergunta final deixar de ser “você tem dados?” para se tornar “quão rápido você conversa com evidência confiável para vencer o mercado?”.

Referências Bibliográficas:

CAPGEMINI. The invisible user interface: Can conversations replace clicks to power higher growth? 2025. Disponível em: https://www.capgemini.com/insights/expert-perspectives/the-invisible-user-interface-can-conversations-replace-clicks-to-power-higher-growth/. Acesso em: 9 fev. 2026.

DELOITTE. When interfaces vanish, trust must become visible. 2025. Disponível em: https://www.deloitte.com/lu/en/our-thinking/future-of-advice/designing-trust-in-a-world-of-invisible-interfaces.html. Acesso em: 9 fev. 2026.

 FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS (FGV). Inteligência artificial generativa traz desafios para a aprendizagem, aponta pesquisa. 2026. Disponível em: https://portal.fgv.br/noticias/inteligencia-artificial-generativa-traz-desafios-para-aprendizagem-aponta-pesquisa. Acesso em: 9 fev. 2026.

MCKINSEY & COMPANY. The state of AI in early 2024: Gen AI adoption spikes and starts to generate value. 2024. Disponível em: https://www.mckinsey.com/capabilities/quantumblack/our-insights/the-state-of-ai-2024. Acesso em: 9 fev. 2026.

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Pedro Bocchese

Head de Inovação das Empresas Processor. Possui Pós-Doutorado em Administração de Empresas com pesquisas na área da Teoria Ator Rede. Doutor em Ciências da Linguagem pela UNISUL realizando pesquisa na área de algoritmos do buscador Hummingbird do Google e seu processo de personalização através do conceito The Filter Bubble. Mestre em Gestão de Políticas Públicas pela Univali onde apresentou como defesa de sua dissertação um modelo de Conversão de Metodologias de Cálculo de Valores Venais para municípios. Pós graduado em Engenharia de Software, MBA em Sistemas de Informação e Maçonologia: História e Filosofia; Pós graduando em Data Analytics; MBA em Master Digital & Metaverso. Graduado em Administração de Empresas e Análise/Desenvolvimento de Sistemas; Possui mais de 25 anos de experiência na área de desenvolvimento de software e análise de dados e mais de 20 anos em docência para cursos de graduação e pós-graduação.