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A gravidade do momento histórico deveria estar a unir os núcleos de poder e influência no Brasil. Para além de ameaças e riscos da profunda reconformação geopolítica mundial, somos, no plano interno, um país esfacelado, despido de uma espinha dorsal de nação que, vulnerável, balança entre blocos políticos atrasados, conflitivos, tacanhos, sem uma agenda de desenvolvimento nacional e desprovido da capacidade de estabelecer diálogos e entendimentos sobre temas necessários à prosperidade brasileira. A consequência é uma só: decadência — material, humana, social e institucional da República.

A descensão brasileira não é obra do acaso. Somente um plano muito bem elaborado seria capaz de transformar um país riquíssimo em um fosso de pobreza, desigualdade e insegurança em todas as suas formas. De forma metódica, tudo começou na raiz do crescimento humano: o sistema de ensino. Para além de um fato meramente pessoal, é crível supor que muitos dos leitores sejam filhos de pais educados, com boa formação cultural, em escola pública. Tal geração anterior foi equipada com conhecimento e orientação para ter autonomia e responsabilidade, construindo famílias, lares equilibrados, dotados de capacidade laboral e, assim, aptos a gerar renda para um digno custeio familiar.

Todavia, num estalar de dedos, o sistema de ensino público foi implodido no Brasil. Ao invés da cultura, optou-se pela ignorância. Ao invés da autonomia individual, preferiu-se a dependência estatal. Ao invés da liberdade e prosperidade pessoal, elegeu-se a dependência e o assistencialismo oficial. Ao invés da honra e da decência institucional, o triunfo festivo foi o da corrupção desbragada.

Com o sistema de ensino destruído, o povo foi deixado à mercê dos piores expedientes políticos. Traindo a boa-fé dos cidadãos, a democracia foi transformada em um jogo de farsas e mentiras. E o mais grave: com o aparato educacional esfacelado, não há mais massa crítica para a formulação da verdade. Aqueles que eventualmente se arriscam a pontuar fatos com rigor intelectual e independência não raro são tragados por hordas fabricadas em redes sociais, quando não sujeitos a práticas censórias de combate ao pensamento livre.

Com a destruição do capital humano pela ignorância institucionalizada e com ameaças de cabresto à liberdade de expressão, a cidadania brasileira está em posição de absoluta vulnerabilidade. A gravidade destrutiva do processo em curso não mais pode ser ignorada ou tratada como se não existisse. A subjugação da República atinge níveis alarmantes e jamais vistos na história política brasileira. Naturalmente, a boa política, exercida com decência e espírito público, é um farol de esperança que jamais se apaga. Todavia, quando a corrupção e o abuso passam a ser sistêmicos, as vias de retomada institucional vão sendo progressivamente inviabilizadas.

Sim, nossa situação institucional é limite. De duas, uma: ou se coloca, por lideranças sérias, respeitadas e experientes, um freio de arrumação na República, recompondo-se a legalidade, a virtude e a integridade das instituições, ou uma destrutiva época de poder descontrolado poderá levar o país da desordem a um ponto de ruptura de consequências imprevisíveis.

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Sebastião Ventura

Advogado, especialista em Direito do Estado pela Universidade Federal do Rio Grande Sul. Ver perfil completo >>