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O imponderável acontece.  

O fator crítico é como reagimos aos fatos.  

Objetivamente, a aleatoriedade do viver é uma constante, exigindo um mindset capaz de navegar com segurança sobre ondas de adversidade, reversão de expectativas ou mudanças inesperadas. Não se trata tanto de velocidade de reação, mas de firmeza e consistência de movimentos frente ao inesperado.       

Sim, a temporalidade da vida é feita de construções provisórias. O erro está no pensar absoluto e a consequente clausura aos segredos ocultos das circunstâncias que, uma vez revelados, impactam a ordem estabelecida. 

Ora, diante de processos dinâmicos, não podemos adotar lógicas estáticas.  

O desafio não está em flexibilizar metas ou objetivos, mas reduzir a rigidez dos caminhos traçados. Aliás, podemos chegar a destinos por terra, água ou ar. E, quando diante de montanhas intransponíveis, ao invés gastar toda energia na subida rarefeita, talvez a solução esteja em cavar um túnel, rente à curvatura angular do pedregulho.  

Em bela página literária, a inteligência de Machado de Assis ensina que “o imprevisto é uma espécie de deus avulso” – e, como toda divindade imprevisível – “pode ter voto decisivo na assembleia dos acontecimentos”. Mais do que poético, analiticamente perfeito.  

Definitivamente, a vida não é uma equação matemática. Por maior que seja a precisão algorítmica, a liberdade do talento humano é naturalmente infinita. E, assim, nossa inata e incontrolável criatividade pode gerar múltiplas variações inéditas, rompendo com o padrão até então programado. Por assim ser, os espertos arranjos de inteligência artificial estão a reboque da natureza humana, embora fazendo de tudo para subjugá-la.  

Não é à toa que vivemos uma época de impressionante tentativa de padronização e consequente dominação social vertical e horizontal, de profundas consequências econômicas. Os titãs tecnológicos atuais são os “DJs” da festa e do after party.  Diferentemente de outras experiências (vividas ou imaginárias), há, hoje, uma maior segmentação de padrões comportamentais, a partir de escolhas pessoais sucessivas, compiladas em gigantescos bancos de dados com frenético entrecruzamento informacional.  

Com o olhar sobre o horizonte existencial, a sabedoria de Camões bem constatou que “mudam-se os tempos; mudam-se as vontades”. Ou seja, não há padrão perpétuo, pois a humanidade é transformação em si. 

No fim, o imponderável é sempre decisivo. Todavia, enquanto a ponderação governa, quem dita o padrão é rei. E não há reinado sem uma farta corte festiva, que se beneficia da estrutura posta, vivendo ardentemente as benesses do poder. 

Entre nobres e plebeus tecnológicos, a história da humanidade se repete em novas vestes, personagens e enredos. A narrativa deste capítulo segue aberta e sem final conclusivo, havendo, ainda, inúmeros convites para a festa.  

E, então, já escolheu o traje ou deixará o trem da vida passar?    

Sebastião Ventura

Sebastião Ventura

Advogado, especialista em Direito do Estado pela Universidade Federal do Rio Grande Sul. Ver perfil completo >>

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