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As tragédias mudam a humanidade. A dor profunda é um sentimento rebelde, que não cala até encontrar uma resposta razoável. Nas sinuosidades da existência, não há sofrimento que dure para sempre; a vida, por caminhos tantas vezes inesperados, vai lançando raios de sol, iluminando a escuridão dos corações que sofrem. E, na falta dos que se foram, encontramos a força do amor que nos faz continuar.

Saudade, aliás, é um tom do presente. Sentimos falta da liberdade perdida, dos empregos dizimados, dos negócios destruídos, dos afetos que não voltam mais… Tempos de perdas, inverno de lutos.

Apesar de tudo, em algum momento, teremos que reagir.

Ao longo da história, a liderança política foi o principal fator de superação de adversidades obscuras. Quanto ao ponto, o talento de Churchill é o exemplo natural; sabidamente, sua trajetória não foi fácil, jamais desistindo diante da oposição estúpida, da ameaça grave ou da veemente insensatez humana. Transcendeu a si mesmo, tornando o mundo melhor.

Infelizmente, tal tipo de líder não existe mais. A contemporaneidade é marcada pelo governo dos medíocres.

Sim, a decadência da política como instância hábil de resolução de problemas sociais é um fato da realidade. Está posto. Não é irreversível, pois dependente unicamente de nós. Mas a situação é gravíssima. Sinceramente, ignoro como a democracia resolverá seus desafios atuais, mas sei que o sistema e os atores que aí estão não são os ‘players’ que irão nos salvar.

O incrível é que vejo amigos, conhecidos e anônimos – muitos brilhantes e talentosos – apenas encherem a boca para xingarem políticos e governantes, como se isso resolvesse alguma coisa. Ora, se o ódio fosse algum tipo de solução, poderíamos investir na marcha febril. Mas não é. Definitivamente, não será nos dividindo, ofendendo ou guerreando que chegaremos à justa medida das soluções eficazes.

É lógico que a liberdade de expressão faz o direito de crítica legítimo e absolutamente necessário. Entretanto, a crítica política há de ser colaborativa e, não, destrutiva, sob pena de transformar tal liberdade num calabouço de orações sem sentido. No todo, a expressão humana é livre para nos tornar melhor como coletividade, possibilitando a compreensão de nossos dramas, o pacífico entendimento em nossas diferenças e o florescer da compaixão mútua.

Sem cortinas, a democracia – especialmente nas intensas horas de dor – exige a grandeza de atos concretos por parte daqueles são capazes de ir além do fel das palavras. A retórica encanta, mas são os tijolos que erguem nossas casas. As ideias são, sim, fundamentais para mapear o destino das nações, estabelecendo as linhas de princípio e os planos de futuro. Todavia, ideias são ocas sem ações que as representem no mundo.

Mais do que meramente imaginar, o ser humano ganhou a vida para agir e, passo a passo, alcançar a plenitude de seu talento inato. Ou seja, a clareza do pensamento só fica em paz com as cores da ação concreta na vida vivida. Portanto, é hora de irmos além da crítica, pois o Brasil precisa urgentemente de nós.

Numa última sentença, ser capaz e não agir, além de imperdoável covardia, nos torna solidários na incompetência que tanto gostamos de atribuir apenas a políticos.

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Sebastião Ventura

Sebastião Ventura

Advogado, especialista em Direito do Estado pela Universidade Federal do Rio Grande Sul. Ver perfil completo >>

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 Comentários
  • Anderson Colognese disse:

    Parabéns pelo texto que nos leva de volta ao centro, nos atribui novamente a nossa responsabilidade. As pessoas precisam fazer mais, propor caminhos viáveis também aos governantes, e exigir que sejam aplicado. Não existe nós e eles, mas sim somos todos um, e tudo nos afeta, assim como nossas ações afetam a todos. Portanto, vamos construir juntos as saídas para as dificuldades. Cada um com o que puder contribuir.!

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