Certa vez, telefonou-me uma professora. Havia lido algo que eu escrevera e me escalou para seu desabafo. Ia mudar de atividade. Estava cansada da agressividade dos alunos, do desinteresse dos pais, das carências materiais, de um cenário desesperador.
Respondi a ela que a escola não era diferente do que se via nas famílias, no trânsito, na política, nas relações empresariais, no futebol dentro e fora do campo, nas relações internacionais. A escola é parte, não é a causa nem a consequência. A causa é a humanidade construindo seu pequeno paraíso particular, ignorando a existência de uma Lei Natural inscrita na natureza humana. De algumas décadas para cá, tornou-se impróprio mencionar Deus entre intelectuais. Eta geração vaidosa!
Para quantos não sabem e para quantos recusam a Lei Natural, lembro ser a ela que se referiu Thomas Jefferson quando iniciou a Declaração de Independência dos Estados Unidos, mencionando as “leis da natureza” e o “Deus da natureza”, para, em seguida, afirmar as palavras poderosas que tantos, mundo afora, sabem de cor: “Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade”. Um ignorante, esse Jefferson.
Os seres inanimados seguem leis da Física, não cogitam de condutas alternativas. Já os seres humanos somos responsáveis por nossas ações e, toda hora, nos confrontamos com as decorrências da nossa liberdade. É conosco, é com o homem, que a liberdade entra na História. Ela é um atributo nosso. É um atributo tremendo, tão potencialmente glorificante quanto destruidor.
De fato, somos livres e queremos; queremos, mas, por vezes, não devemos querer; queremos, mas, outras tantas vezes, não obtemos. Queremos, é bom, mas, em muitos casos, sabemos que não faz bem. É perante a liberdade que ganha conteúdo a responsabilidade moral. Somos moralmente responsáveis pelas opções que fazemos em ambiente de liberdade de decisão. Já os animais não fazem escolhas morais. Seguem a ordem do instinto. Nós, perante o apetite, o vício, a cobiça do alheio e as pulsões, podemos escolher. Não somos macacos mais bem qualificados.
Em 2011, o STJ resolveu uma pendenga que rolava havia algum tempo. Os chimpanzés em cativeiro têm direito a habeas corpus? Estamos muito preocupados com o respeito à dignidade dos animais e, ao mesmo tempo, há gente fazendo o possível para animalizar o ser humano!
Liberdade, portanto, não consiste em se fazer o que se quer. A excelência da liberdade está, precisamente, no fato de que, para realizar a nobreza de seu objetivo, ela exige de nós o controle da vontade para submissão a uma ordem moral.
Fácil compreender: quem só faz o que quer acaba escravo de suas fraquezas. Aqueles que mais apaixonadamente clamam por um utópico fim do Estado, para instituir uma epifania da liberdade, deveriam ser os mais interessados em afirmar a natureza da ordem moral que sobre ela se impõe e fazer o possível para que tenha mais apelo emocional e racional do que as leis do Estado.



