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Voltar a Portugal é sempre, de certa forma, um regresso às origens para quem nasceu e vive em Porto Alegre. Afinal, foi nesta “paragem” — como diriam os portugueses — que, no distante ano de 1752, desembarcaram os primeiros 60 casais açorianos, dando origem ao povoado então conhecido como Porto dos Casais.

Diferentemente de visitas anteriores, optei desta vez por percorrer dois destinos de grande relevância histórica, próximos a Lisboa e dotados de identidades muito singulares: Sintra e Évora.

Sintra é aquele trecho de serra a 25 km de Lisboa, onde a névoa se ergue pela manhã, a vegetação engole tudo e, de repente, surge um palácio amarelo e vermelho encarnado no topo do monte. Durante séculos, foi o refúgio da realeza a escapar do calor da capital. Em 1838, D. Fernando II adquiriu as ruínas de um antigo mosteiro e transformou-as na residência de verão da família real, enaltecendo os estilos gótico, manuelino, mourisco e renascentista. Sintra é o tempo que se enfeita.

Évora é o oposto: o tempo que se acumula. Situada no coração do Alentejo, é chamada de “cidade-museu” — e com razão. Seu centro histórico preserva, lado a lado, os vestígios de milênios e das civilizações que moldaram a Península Ibérica. Na era romana, ergueu-se como relevante entreposto militar e comercial, período do qual deriva seu marco mais célebre: o Templo Romano do século I d.C., popularmente conhecido como Templo de Diana. O nome, contudo, não passa de uma lenda do século XVII; a verdadeira dedicação do templo permanece incerta, embora a hipótese mais aceita recaia sobre o imperador Augusto.

Demorei-me diante do Templo Romano de Évora, a contemplar a sobriedade das pedras e a sobreposição dos materiais, como quem busca decifrar uma conversa entabulada entre séculos. É uma estrutura do século I que permanece altiva — e que, certamente, lá continuará muito depois de mim. Como pode?

A resposta alinhou-se aos poucos, à medida que eu caminhava. O templo não sobreviveu apenas por sua solidez — embora a tivesse. Sobreviveu por ter sido continuamente útil. Na Idade Média, foi integrado à estrutura de uma torre de castelo e, a partir do século XIV, chegou a funcionar como açougue, o que, ironicamente, o ajudou a atravessar os séculos. Cada época encontrou nele uma serventia e, mesmo sem o saber, assegurou sua preservação. O que serve, permanece.

Caminhei bastante naquele dia — cerca de doze mil passos, ou oito quilômetros. Visitei a imponente Sé, seu museu de arte sacra, e fiquei pensando sobre o papel central que a fé desempenhou na trajetória da humanidade. Percorri um extenso trecho das muralhas de origem romana que cercam a cidade, refeitas e reforçadas ao longo de eras por gerações que dela necessitaram. Em Évora, o tempo não passou: acumulou-se em camadas.

Foi exatamente ali que o pensamento me assaltou: e se eu tivesse vivido aqui?

Na pele de um administrador romano, por exemplo, a aferir terras e recolher tributos para um império que jamais veria inteiro. Évora ostentava, então, a denominação de Liberalitas Julia Ebora, evocando a tradição associada a Júlio César, a figura histórica que mais admiro daquela era. Ele não se limitou a expandir fronteiras; legou leis e conceitos que, passados dois milênios, ainda organizam nossa vida. As fronteiras mudaram de mãos, mas as ideias seguem em uso.

Ou na pele de um mercador medieval, a negociar entre o assombro da peste e a incerteza das rotas comerciais, consciente de que a prosperidade acumulada em um ano poderia esvair-se no seguinte, sem qualquer aviso.

Ou ainda na pele do tesoureiro do rei, no século XVI — esta, a hipótese que mais me inquieta e na qual mais me reconheço. Imagino-me diante de dilemas como financiar ou não a expedição de caravelas que partiriam rumo ao desconhecido. Os cálculos estavam postos, os pilotos eram experientes, as variáveis apontavam o êxito. E, contudo, sabia-se que a palavra final não pertenceria a ninguém senão ao mar. Agora, no presente, indago-me: quantas vezes, ao longo de quatro décadas de trajetória corporativa, ajudei a estruturar e a aprovar projetos impecáveis no papel? E quantas vezes o mar deu a última palavra? Mudaram as embarcações, mas não o ofício de decidir sob a penumbra do incerto.

Mais de dois séculos depois, a Coroa adotaria decisão semelhante ao organizar a travessia de casais açorianos rumo ao sul do Brasil, prometendo terras, ferramentas e auxílio financeiro. Entre esses pioneiros estavam os 60 casais que lançaram as sementes da minha cidade. É bem verdade que muitas daquelas promessas não se cumpriram por inteiro; contudo, alguém apostou no escuro — e eu sou, de certa forma, parte do resultado.

Na Igreja de São Francisco, saqueada pelas tropas francesas em 1808, visitei a Capela dos Ossos. O ambiente é bem cuidado, dotado de certa harmonia decorativa, mas revestido de uma atmosfera inegavelmente mórbida. Vale, todavia, deter-se ante a advertência inscrita por seu idealizador à entrada: “Nós, ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. É um lembrete gentil sobre a nossa transitoriedade. E eu me permitiria acrescentar uma segunda frase, que a capela sugere sem explicitar: já que a existência é breve, cumpramos cada dia com a máxima plenitude que pudermos.

Foi nesse ponto que as muralhas voltaram à minha cabeça, agora como símbolo. Évora possui uma assinatura inconfundível, tecida em pedra e moldada pelo tempo. As pessoas também carecem de construir a sua — não em rocha, mas no legado de suas obras, nos seus atos e suas contribuições à sociedade. Para o educador, traduz-se nos livros, nos artigos e nos discípulos que levam adiante o que aprenderam. Se o templo resistiu por ter sido útil, nós perduramos na exata medida do serviço que prestamos. A marca de cada indivíduo não se mede pelo que acumulou, mas pelo que deixou em pleno uso depois de partir.

Escrevo estas linhas no trem de volta a Lisboa, sob o aconchego do cansaço típico de quem percorreu o dia a pé. Enquanto o comboio balança sobre os trilhos, a reflexão vai, gradualmente, amadurecendo.

Talvez eu próprio tenha sido demandado e testado em outras vidas, sob distintas atribuições e contextos — à semelhança do templo a que deram serventia romanos, cristãos e mercadores. Não há como saber. O que sei, ao certo, é que o verdadeiro desafio nunca consistiu em escolher a época em que nos cabe viver. Foi — e sempre será — extrair o melhor de nós com os recursos de que dispomos, no tempo que nos foi atribuído, buscando a plenitude no exercício dos talentos que cultivamos para fazer frente ao que a existência, em cada tempo, nos reserva.

O administrador romano, o mercador, o tesoureiro e eu estamos, ao fim do dia, todos diante da mesmíssima interrogação: o que fiz de útil com aquilo que me foi dado?

Com serena sabedoria, as pedras de Évora já responderam à sua.

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Osvaldo Schirmer

Osvaldo B. Schirmer é graduado em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com Master’s Degree pela Southern Illinois University e formação executiva complementar na Harvard Business School. Desenvolveu grande parte de sua carreira executiva no Grupo Gerdau, onde atuou por 27 anos, tendo exercido, entre outras, as funções de Diretor Financeiro, CFO Global, Vice-Presidente e membro do Comitê Executivo. Desde 2013 dedica-se principalmente à atuação em Conselhos de Administração, tendo participado de empresas de capital aberto e fechado, nacionais e internacionais, em diferentes setores da economia. Em Lojas Renner, onde esteve por 14 anos, foi membro, Presidente e Vice-Presidente do Conselho. Atualmente integra os Conselhos da SLC Agrícola, Oleoplan e Vibra Foods, além de atuar em comitês de Auditoria e Finanças. Foi professor da UFRGS e atualmente participa como professor convidado da Fundação Dom Cabral em programas de formação de conselheiros. Atua também como mentor de executivos C-Level. Escreve regularmente sobre governança, liderança e comportamento humano, temas que progressivamente ampliou para reflexões sobre escolhas, relações e experiências da vida.