Todos os dias você vê sua timeline inundada com conteúdos sobre IA, desde gurus dizendo quais são as melhores e mais hypadas LLMs do momento até autoproclamados especialistas enaltecendo o quanto isso vai transformar a sua vida e gerando um FOMO para vender cursos. Tudo certo. Novas ondas transformadoras sempre geram este tipo de comoção nas redes; era de se esperar que algo tão impactante quanto a democratização da IA fosse pelo mesmo caminho.
Pois meus 2 centavos sobre o tema vêm sob uma perspectiva um pouco diferente. Assim como meus outros textos para o Dynamic Mindset, minha abordagem parte do indivíduo para o resto (sociedade, trabalho, etc.) como fenômeno/consequências e impactos.
Antes de entender qual prompt vai gerar sua nova foto de perfil ou qual a melhor IA para gerar sua nova planilha automatizada, deveríamos entender o que ela está fazendo realmente:
Amplificando sua personalidade cognitiva e intelectual, para o bem e para o mal. Como um espelho que reflete e amplifica quem você é, a forma como aprende e sua capacidade de ação. A IA não roubará sua inteligência, mas revelará e deixará exposto se você tinha alguma.
Aos curiosos, interessados, com pensamento crítico aguçado e profundo, uma porta se abre para um potencial quase ilimitado.
Aos preguiçosos, superficiais e acomodados, a porta que se abre é para um abismo onde a mediocridade é o destino final.
Esta diferença culminará em uma divisão social e econômica gigante, mas que também pode ser vista como uma grande janela de oportunidade de diferencial competitivo individual para você, se souber em qual lado se posicionar.
Terceirização Cognitiva
Não há problema algum em utilizar as (poderosíssimas, aliás) ferramentas de IA para resumir livros, reuniões e automatizar trabalho operacional e burocrático. O problema está em delegar o pensamento, terceirizar a sua única arma como humano para sua sobrevivência: sua razão. Ayn Rand explica em sua filosofia objetivista que o pensamento não é um luxo, mas sim uma exigência moral. A fuga do ato de pensar é um mecanismo de autodestruição.
“A razão é o seu meio de sobrevivência – de modo que para você, que é um ser humano, a questão ‘ser ou não ser’ é a questão ‘pensar ou não pensar’”.
“A razão é o único meio do homem de compreender a realidade e de adquirir conhecimento – e, portanto, a rejeição da razão significa que os homens devem agir independentemente da realidade.”
“A razão não é automática. Aqueles que a negam não podem ser conquistados por ela. Não conte com eles. Deixe-os em paz.”
“Você pode evitar a realidade, mas não pode evitar as consequências de evitar a realidade”
Ayn Rand
Expondo alguns impactos já presentes em nossa rotina:
Ter a resposta pronta a um prompt de distância mata a necessidade de investigar, de explorar, de aprender com os erros. Perde-se voluntariamente a beleza de entrar em um estado de flow, falhar, aprender, pensar nos detalhes, ter insights, olhar para o processo e pensar: sou melhor do que era antes de ter começado. Eu construí isso e evoluí no processo, estou um passo mais perto de uma melhor versão de mim mesmo… isso está sendo deixado de lado. Como resultado, temos textos insossos, apresentações medonhas, imagens horrendas e genéricas, músicas sem qualquer expressão e tantas outras bizarrices que vemos por aí.
Ter a resposta pronta é muito diferente de ter o conhecimento. Aceitar uma resposta de uma LLM sem o julgamento crítico não é apenas prejudicial para o indivíduo, mas para a sociedade. Sei o resumo de tudo, mas não sei a essência de nada e, pior, não me importo com a essência.
A quantidade de apresentações, documentos, textos e respostas com informação errada aumentou exponencialmente. As pessoas adotaram um nível de confiança bizarramente alto na sua IA de estimação e simplesmente ignoram a necessidade de checar, contra-argumentar, questionar e validar o que está sendo gerado.
“- Olha só que legal esta apresentação que eu gerei em 5 minutos com ajuda da minha IA”.
Legal mesmo… Mas você leu? Está certa? Está bom? Agrega algum valor? Por incrível que pareça, a resposta é: “não sei, nem li” em muitas vezes.
É como quando uma criança começa a usar uma calculadora e não precisa mais pensar para fazer uma expressão matemática; eu aperto um par de botões e a resposta está lá, precisa e rápida. Uma maravilha… E pouco tempo depois temos uma geração que não sabe interpretar e aplicar uma regra de três simples. Aceitamos terceirizar a aritmética e a capacidade plena de fazer contas por um atalho sedutor e conveniente, onde pagamos o preço, mas não contabilizamos os custos.
Agora eleve esse exemplo por 1.000x e tenha um vislumbre do impacto de achar que sabe, mas não ter ideia.
Aprendemos através do esforço, do processo, da repetição, da lógica aplicada ao contexto e objeto. Quando passamos a depender de uma ferramenta externa para… Escrever um simples e-mail (?)… Estamos estimulando um mindset incapaz de fazer tarefas simples com autonomia, incapaz de sustentar uma atenção prolongada ou conectar ideias complexas por conta própria.
O Último Homem
O filósofo alemão Nietzsche, em 1883, profetizou duas figuras que se encaixam perfeitamente na dicotomia que estamos abordando. Em seu livro “Assim falou Zaratustra”, o “último homem” é apresentado como o arquétipo da mediocridade satisfeita. Da aversão ao desconforto. Da desistência na busca pela superação e da busca apenas pelo alívio confortável, sem perceber que: eliminando a dor, ele também eliminou a profundidade, a paixão, a ambição, o significado.
No enredo, Zaratustra desce a montanha para ensinar aos homens sobre o Übermensch (conceito central na obra de Nietzsche, também conhecido como super-homem ou além do homem, arquétipo contrário ao último homem, onde o sentido da vida seria a busca pela superação, essa força motriz interior que ambiciona sempre mais e o faz ir além, que visa à superação do homem atual, que cria seus próprios valores e se liberta dos grilhões do conformismo) e, ao longo do caminho, encontra e grita a uma multidão em sinal de alerta:
“Ai! Chega o tempo em que o homem não lançará mais a flecha de seu anseio além do homem – e a corda de seu arco terá desaprendido a assobiar!
Eu lhes digo: é preciso ainda ter o caos em si, para dar à luz uma estrela dançante.
Eu lhes digo: vocês ainda têm o caos em vocês.
Ai! Chega o tempo em que o homem não dará mais à luz nenhuma estrela.
Ai! Chega o tempo do homem mais desprezível, que não consegue mais se desprezar.
Vejam! Eu lhes mostro o último homem.”
“Ainda se trabalha, pois o trabalho é um entretenimento. Mas tem-se o cuidado de que o entretenimento não canse.”
O prólogo continua com a tragicômica (e infelizmente verossímil) resposta da multidão, que, em vez de se enojar e entender o alerta, aplaude e somente se interessa pela decadente escolha:
“Dê-nos este último homem, ó Zaratustra” – eles gritaram
– “faça-nos esses últimos homens!”
E todo o povo exultou e estalou os lábios. Zaratustra, no entanto, ficou triste e disse para si mesmo:
“Eles não me entendem: não sou a boca para esses ouvidos
Este perfil representado pela multidão do texto acima mostra um homem mediocremente satisfeito, perdido em uma ilusão da felicidade resolvida, que acredita ter achado a resposta definitiva. Ter alcançado o ápice da vida humana ao fugir do sofrimento e buscar a ausência de esforço, removendo o atrito do aprendizado e a possibilidade de evolução.
Não é incomum encontrarmos perfis como estes acompanhados de uma zombaria do passado: “Nossa, você ainda escreve e-mail sem IA?””Qual o sentido de gastar dias compondo uma música, se eu aperto um botão e está feito?” ou ainda se eximir da culpa com frases como: “Joguei na IA e tive essa resposta, não tenho culpa se está errado”.
Segundo Aristóteles (claro que eu não poderia deixar de citar meu terceiro filósofo favorito neste texto), a felicidade ou finalidade da vida se dá através da virtude e da prática (Eudaimonia) com o atingimento máximo de seu potencial. Uma resposta pronta de IA destrói a prática, a capacidade de ponderar nuances, tomar decisões complexas.
“Considera-se que a vida feliz é uma vida de excelência; ora, uma vida de excelência exige esforço e não consiste em diversão… Se a *eudaimonia*, ou felicidade, é uma atividade em conformidade com a excelência, é razoável que ela esteja em conformidade com a excelência mais elevada; e esta será a do que há de melhor em nós.”.”
Aristóteles – Ética a Nicômaco
A virtude aristotélica exige o exercício ativo de nossas faculdades. Um uso coerente com esta visão não seria o de pular etapas, mas sim o de elevar o teto da sua própria excelência, como um motor de refinamento do intelecto em um constante exercício de expandir suas capacidades, testar hipóteses, analisar contra-argumentos, explorar conexões e ter na IA um parceiro de debate em um sparring intelectual com “apenas” todo o conhecimento já produzido pela humanidade.
Impactos e a janela de diferencial competitivo
Mas Felipe, apontados os riscos e feita a crítica… o que fazer? Deixar de usar a IA?
Nunca! Quem deixar de estudar, aprender, usar e incorporar em sua rotina ficará para trás. O ponto não é o usar ou não usar, mas sim COMO utilizar.
Se abre uma janela de oportunidade de diferencial competitivo absurda à nossa frente.
É necessário entender que não temos apenas toda informação disponível no mundo nas nossas mãos (isso já tínhamos em um Google da vida), mas sim temos todo o conhecimento, a análise, a operação e a execução nas nossas mãos. O poder de correlações não-óbvias e soluções complexas à nossa disposição pode nos elevar a um nível sobre-humano. Quem entender este poder estará anos-luz à frente de quem não entendeu.
Vejo uma divisão em “arquitetos do pensamento”, indivíduos que usam o poder da IA para aprofundar sua excelência, como uma alavanca de produção, expandindo o alcance da sua própria razão ao invés de desligá-la, e os “operadores rasos”, estes, sim, devem ter uma preocupação com a substituição pela própria ferramenta que fingem comandar, pois estão acelerando sua obsolescência.
Esta separação será implacável. A distância será absurda entre os profissionais do conhecimento. Os impactos ainda por serem completamente entendidos.
A próxima geração de líderes e profissionais de excelência será composta por indivíduos que conseguirem combinar, em uma inteligência conjugada, a inteligência emocional, o pensamento crítico/racional e o poder de processamento da IA a seu favor.
Se esta provocação lhe gerar um momento de pausa e reflexão sobre o tema, mesmo que mínimo, terei atingido meu objetivo. Concordar ou não concordar é apenas um detalhe.
Que possamos não perder nossa capacidade de interpretação e leitura da realidade.
Que não tenhamos medo de textos longos e de nossa capacidade crítica.
Que possamos abraçar o nosso caos interno e tantos outros detalhes e imperfeições que nos tornam quem somos… em suma, humanos.
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PS. Um disclaimer óbvio, mas necessário.
Uma leitura superficial deste texto pode causar a impressão de que ele está indo contra a inovação ou ao uso da IA, e é completamente o oposto disso. Sou apaixonado por inovação e trabalho com IA diariamente, faz parte de minha rotina profissional e pessoal e é maravilhoso poder viver nesta época onde estamos vendo coisas que só eram imagináveis na ficção científica virar realidade em frente aos nossos olhos.
Esta transformação é a mais importante desde a criação da internet e saber que não tocamos nem a ponta do iceberg em relação ao potencial da IA me traz a confiança em um futuro de abundância para a humanidade. Mas momentos de transformação exigem alguns toques na ferida e uma leitura profunda sobre o tema.

Imagem gerada por IA e errando completamente ao botar eles sorrindo XD
Esse hipotético encontro seria na base do dedo na cara e gritaria <o>



