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E se a morte viesse hoje, você sentiria que a vida que levou foi, de fato, a sua?

Você tem se permitido olhar para a finitude? Ou morre de medo de pensar sobre isso? Eu sei, esse é um tipo de provocação que incomoda (não escapo completamente também), mas acredito que exatamente por isso devemos acolhê-la.

Há alguns dias, essas perguntas voltaram a me rondar. O que eu fiz? Abri espaço para que elas povoassem minha mente e refleti com calma!

Mais fácil, claro, seria o conforto das distrações: acordar, pegar o celular, responder mensagens, seguir agendas, resolver problemas, a segurança da previsibilidade, cumprir expectativas…

Preferimos sempre deixar tal reflexão para depois, acreditando que há tempo (muito tempo) para ajustar, mudar, começar as coisas. Mas e se não houver, hein?

O psicanalista Ernest Becker, no livro “A negação da morte”, diz que “a ideia da morte, o medo que ela inspira, persegue o animal humano como nenhuma outra coisa; é uma das molas mestras da vida humana.” Ou seja, quando podemos compreender a nossa finitude (que um dia chegará, sim!), temos um impulso de vida, podendo recalcular rotas (quando a vida está no sentido oposto de nosso desejo) e encontrar energia para realizar sonhos mais aderentes ao nosso propósito.

Já a atriz Fernanda Montenegro, com 96 anos de idade e em plena atividade, disse em um tributo da Globoplay que “a consciência da morte é constante, diária, a cada segundo. Não é se conformar, é tentar aceitar, porque vai vir. O que vamos fazer? Ninguém é eterno!”.

Viver na maior potencialidade que cada um de nós possui, nesse contexto, é não desviar dessa inquietação. E aí vem uma outra questão crucial: estamos vivendo ou apenas ocupando o nosso tempo? Existe uma diferença silenciosa entre as opções, sendo que a segunda se instala devagar nos dias que passam rápido demais, nas semanas que se repetem e nos anos que desaparecem sem que algo realmente significativo tenha sido vivido.

Continuaremos adiando conversas importantes, engolindo verdades, aceitando rotinas que não fazem sentido, permanecendo em lugares — profissionais e pessoais — que já não nos representam e em que não cabemos mais?
Deixaremos a vida ser preenchida, sem necessariamente ser vivida? Seguiremos usando as justificativas: “depois eu vejo isso”; “agora não é o momento”; “mais pra frente eu resolvo”?

A vida não espera o momento ideal. Ela acontece enquanto adiamos.

Sem perceber, começamos a trocar presença por produtividade, sentido por obrigação, vida por ocupação. Até que a pergunta volta — mais direta, mais crua e impossível de ignorar.

É um desassossego difícil de explicar, um cansaço que não é só físico. Uma sensação constante de que estamos sempre fazendo muito — e, ainda assim, vivendo pouco. E, então, nos convencemos de que é assim mesmo, que todo mundo vive assim, que propósito é luxo, que felicidade é algo pontual e reservado para momentos específicos.

Mas e se morrêssemos hoje? Como seria isso? Quando bate esse assombro, de repente, tudo muda de lugar: os e-mails não respondidos deixam de importar, as metas pendentes perdem o peso, as preocupações que consumiam o dia inteiro parecem… pequenas. E aquilo que foi ignorado ganha uma clareza quase dolorosa: as palavras não ditas, as decisões evitadas, a vida que se sentiu vontade de viver (mas não se viveu).

É nesse momento que a ausência de propósito deixa de ser um conceito distante e se torna algo profundamente pessoal. Porque viver sem propósito não significa estar perdido o tempo todo, mas, muitas vezes, estar perfeitamente ajustado a uma vida que não é sua.

É funcionar bem por fora e se sentir desconectado por dentro. É cumprir tudo — e, ainda assim, sentir que falta algo essencial. E o mais inquietante: isso pode durar anos.

Pensar na morte não é sobre desistir da vida. É parar de desperdiçá-la e usar a finitude como um espelho honesto — que não aceita desculpas, não suaviza verdades e não permite adiamentos infinitos.

No fim das contas, a pergunta não é se você tem tempo, mas o que você está fazendo com ele?

Talvez você não consiga mudar tudo hoje, nem romper com tudo que não faz sentido de uma vez só. Mas existe algo que sempre é possível: parar de ignorar e fingir que não vê, parar de aceitar automaticamente o que já não faz sentido e de se abandonar dentro da própria vida.

O propósito surge quando você decide não se anestesiar mais, sentir mais, questionar e reavaliar mais. E a mudança emerge quando se decide assumir a responsabilidade de não adiar mais aquilo que já é urgente dentro de nós. No fim, tudo volta ao início: à mesma pergunta. Simples. Incômoda. Inevitável.

E se a morte batesse na porta hoje? Talvez você não tenha todas as respostas — e nem precise. Porque, no silêncio que vem depois dessa pergunta, uma verdade costuma aparecer — sem filtros, sem distrações, sem desculpas: você não precisa de mais tempo. Você precisa de mais verdade na forma como está vivendo.

Fica o convite para um exercício franco: pare um pouco, interrompa as distrações do dia a dia e responda se está vivendo realmente ou apenas ocupando o tempo!

Um ponto final: esse artigo foi inspirado no filme “Foi Apenas um Sonho”, no qual um casal americano feliz, nos anos 50, tenta remar contra a maré do destino e das regras ditadas pela sociedade, mudando-se para uma casa na Revolutionary Road. Nessa transição, percebem que se tornaram o que mais temiam: ele, em um trabalho insignificante; ela, uma dona de casa infeliz. A mulher, então, propõe um recomeço, em Paris, deixando o conforto da casa atual. O filme levanta várias questões, como: será que as pessoas são realmente felizes com a vida que levam?

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José Alfredo Nahas

Administrador de Empresas com pós-graduação em Desenvolvimento Comunitário pela Universidade de Lisboa e no Programa Avançado em ESG pela Escola de Negócios Saint Paul. Mais de 30 anos de carreira com passagem pelo Terceiro Setor e mundo empresarial. Após iniciar a sua carreira na AMBEV, como gerente comercial, atuou por 20 anos na ONG Parceiros Voluntários, tornando-se superintendente e liderando a equipe executiva, com report direto para o presidente do Conselho de Administração. Desde abril de 2024, ao aceitar um convite para retornar à AMBEV, assumiu a Diretoria de Gente e Gestão do Grupo Rotele, empresa responsável pela comercialização e distribuição da Cervejaria na cidade de Campo Grande (MS) e região.