Nos últimos anos, tenho conversado com muitos executivos, líderes de tecnologia e empresários que carregam negócios sólidos. Empresas que foram construídas ao longo de décadas, que conhecem bem seu mercado, que têm clientes fiéis e operações maduras.
Curiosamente, quase todas essas conversas começam com uma sensação parecida.
Uma espécie de desconforto.
Não é exatamente medo de tecnologia. Não é falta de vontade de evoluir. É algo mais sutil: a impressão de que o mundo acelerou de forma repentina e que agora parece existir uma expectativa silenciosa de que tudo precise ser reinventado ao mesmo tempo.
De repente, surgem novos termos, novas ferramentas, novas promessas. IA generativa, agentes autônomos, copilotos, automações cada vez mais sofisticadas. Ao olhar de fora, parece que as empresas mais modernas estão produzindo em outro ritmo.
Mas, quando a conversa se aprofunda, algo curioso aparece.
Muitas dessas organizações não estão exatamente produzindo mais valor. Estão apenas fazendo mais coisas.
Esse é um fenômeno que venho chamando, de forma meio provocativa, de teatro da produtividade.
Não se trata de má intenção, muito menos de incompetência. É apenas o resultado natural de um momento histórico em que a pressão por evolução chegou antes da clareza sobre como evoluir.
Um estudo recente da Microsoft mostrou algo interessante: 53% das lideranças dizem que a produtividade precisa aumentar, enquanto 80% dos profissionais afirmam que já não têm tempo ou energia suficientes para cumprir todas as demandas do trabalho. Em média, as pessoas são interrompidas a cada dois minutos por reuniões, mensagens ou notificações. Ao longo de um dia, isso pode passar de duzentas interrupções. (Microsoft Work Trend Index)
Quando olhamos para esse cenário, fica difícil acreditar que o problema seja apenas falta de ferramentas.
Na prática, o que muitas organizações estão vivendo é uma multiplicação de atividades que parecem progresso, mas que raramente enfrentam as fricções reais do trabalho.
Mais reuniões para alinhar o que já estava alinhado.
Mais dashboards para medir o que ninguém decidiu ainda.
Mais ferramentas para organizar um fluxo que continua confuso.
Enquanto isso, a pressão para “parecer moderno” aumenta.
No Brasil, por exemplo, o uso de inteligência artificial em empresas industriais com mais de 100 funcionários saltou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024, segundo o IBGE. O movimento é real e saudável. Poucas organizações querem ficar paradas enquanto seu setor se transforma.
Mas adoção tecnológica e transformação real são coisas diferentes.
Uma pesquisa da McKinsey mostrou que mais de 70% das empresas já utilizam IA generativa em alguma área. Mesmo assim, mais de 80% delas ainda não enxergam impacto relevante no resultado financeiro da companhia. Um dos fatores que mais aumentam a chance de captura de valor é algo bem menos glamouroso: redesenho de processos e fluxos de trabalho.
Ou seja, antes de qualquer tecnologia nova, existe uma conversa antiga que precisa acontecer.
Como o trabalho realmente acontece dentro da empresa?
Essa pergunta parece simples, mas, muitas vezes, ela nunca foi feita de forma honesta.
Boa parte das organizações cresceu adicionando camadas ao longo do tempo: novos sistemas, novos rituais, novos controles, novos relatórios. Tudo isso fez sentido em algum momento. O problema é que raramente alguém volta depois para perguntar se aquilo ainda faz sentido.
Quando uma nova onda tecnológica chega, ela costuma ser aplicada sobre essa estrutura já complexa.
É como tentar instalar um motor mais potente em um carro cuja transmissão continua antiga. O motor gira mais rápido, mas o deslocamento não muda tanto.
Talvez por isso muitas empresas sintam que estão sempre correndo e, ao mesmo tempo, sempre atrasadas.
Existe também um outro ponto que aparece muito nas conversas com lideranças.
O medo de que evoluir signifique abandonar tudo o que foi construído até aqui.
Esse receio é compreensível. Durante anos, a narrativa dominante da transformação digital foi quase sempre apresentada como ruptura, como se tudo o que existia antes fosse automaticamente obsoleto.
Na prática, muitas empresas bem-sucedidas chegaram até aqui justamente por terem processos sólidos, cultura operacional forte e profundo entendimento do cliente.
Isso não é um problema.
Isso é patrimônio.
A questão não é descartar o legado. A questão é aprender a traduzir esse legado para o presente.
Em muitos casos, a evolução mais relevante não exige aprender vinte tecnologias novas. Ela começa com algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: revisar como o trabalho flui dentro da organização.
Onde estão os gargalos?
Onde decisões levam semanas quando poderiam levar horas?
Onde dados existem, mas ninguém consegue acessá-los no momento certo?
Onde as pessoas estão ocupadas demais para pensar?
A tecnologia pode ajudar muito nesses pontos. A inteligência artificial, inclusive, tem um potencial enorme para amplificar capacidades humanas.
A OECD estima que a IA pode aumentar o crescimento da produtividade do trabalho entre 0,5% e 3,5% ao ano ao longo da próxima década.
Mas existe um detalhe importante nessa estimativa.
A produtividade não cresce porque novas ferramentas aparecem. Ela cresce quando essas ferramentas mudam a forma como o trabalho é realizado.
Essa diferença pode parecer sutil. No entanto, ela separa empresas que apenas adotam tecnologia de empresas que realmente evoluem.
Talvez por isso a pergunta mais importante neste momento não seja “qual tecnologia precisamos aprender agora”.
Talvez a pergunta seja outra.
O que, dentro da nossa operação, realmente cria valor hoje?
E o que apenas cria movimento?
Essa distinção é mais difícil do que parece. Muitas atividades dentro das empresas parecem importantes simplesmente porque sempre foram feitas. Outras existem porque, em algum momento, alguém pediu um controle adicional, uma reunião a mais, um relatório extra.
Com o tempo, o sistema inteiro vai se adaptando a essas camadas.
Quando uma nova onda de inovação chega, a tentação é apenas acrescentar mais uma camada.
O resultado é um ambiente que parece cada vez mais sofisticado e, ao mesmo tempo, cada vez mais cansado.
Talvez o verdadeiro desafio desta era de produtividade esteja justamente aqui.
Não em correr atrás de todas as tecnologias novas.
Mas em ter a maturidade de olhar para dentro e perguntar, com certa honestidade:
Estamos realmente evoluindo a forma como criamos valor?
Ou estamos apenas aperfeiçoando nossa capacidade de parecer ocupados?




Exlente reflexão!
Parabéns Leôncio.!! Se o seu objetivo foi criar dúvidas e reflexões com o artigo, você honestamente conseguiu!!
Muito me senti, quando você cita a questão dos 2 minutos de interrupção, durante o meu dia, recebo várias mensagens com símbolos de interrogação quando demoro o tempo de resposta e espectativa que a outra pessoa criou…
No mundo corporativista meus clientes sentem falta de uma boa conversa, não das mensagens automáticas e robôs que quase nunca conseguem resolver a suas solicitações, essas conversas sim, promovem confianças, estreita laços e criam valores DURADOUROS…
Termino aqui, escrevendo a sua frase que tanto me impactou e me fez vir aqui, deixar esse comentário! ” A pressão por evolução chegou antes da clareza sobre como evoluir.”
Excelente artigo !
Excelente reflexão.
Tenho atuado justamente nesse ponto de organizar demandas e dar mais clareza à operação, e fica muito evidente como o ganho vem mais da forma como o trabalho é estruturado do que da adoção isolada de novas ferramentas.